Vou fazer o papel de uma bêbada que vende os filhos em Paris, nos tempos da Comuna. Tenho apenas cinco réplicas. E preciso de me deslocar, de subir a rua. Caminharei como gente livre, gente que só o álcool quis libertar e voltar-me-ei para o público. Analisei as minhas cinco réplicas como os documentos que se lavam com ácido para descobrir sob os caracteres visíveis outros possíveis caracteres. Pronunciarei cada réplica com a melhor acusação contra mim e contra todos os que me olham.
Se eu não refletisse, maquilar-me-ia simplesmente como uma velha beberrona doente e decadente. Mas vou entrar em cena como uma bela mulher que guarda a marca da distribuição na pálida pele outrora macia e agora cheia de rugas outrora atraente e agora repelida pra que ao vê-la cada um se interrogue: quem fez isto?
texto: Bertolt Brecht
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